Tempo, tempo, tão ligeiro estás... Foi numa sexta-feira à noite, há uns vinte dias... Tive a
grata alegria em participar de uma banca de conclusão do curso de cozinheiro
profissional do SENAC – Pelotas. O evento foi no Restaurante Trem Bão, de
proprietários mineiros, estabelecimento que já completa 15 anos na cidade. A grande
mesa para os convidados estava caprichosamente decorada com bonitos arranjos de
flores frescas.
A proposta
dos alunos orientados pelo professor André Eduardo, o Edu foi: “Entre panelas e
palavras – um encontro entre a Gastronomia e a Literatura Brasileira”. Bem, só
pelo título do banquete, já fiquei muito feliz; senti-me duas vezes em casa,
por estar em um restaurante de comida típica mineira e por essa escolha dos alunos
entre comida e livros. Desde a graduação em Letras, pesquiso edições de livros
que contemplam essa mistura de gastronomia e literatura. Sensação boa e uma
expectativa grande do que iríamos saborear na noite. Os alunos nos deram as
boas vindas e para a apresentação dos pratos elegeram o Gregory, rapaz muito
comunicativo, também formado em Letras para nos contar dos detalhes pensados,
os ingredientes e um pouco sobre a literatura e os autores escolhidos.
Foi mesmo
muito especial e quando se trata dessa mistura, um banquete inspirado na
literatura brasileira com a diversidade da nossa cultura e fartura em alimentos
e modos de preparo por todo país, não poderia ser diferente! Servido ao estilo menu degustação; um coquetel, com
destaque para a pimenta recheada. Duas entradinhas perfeitas e muito saborosas,
uma delas de comer rezando: Dados de
queijo coalho e tapioca ao molho de cheiro verde; três pratos principais e
o meu preferido foi o vatapá inspirado em Jorge Amado, que foi pra Gabriela
nenhuma botar defeito! Entre os pratos principais, nos serviram dois “limpa
palato” e de sobremesa uma mousse de queijos com doce de mamão em calda,
homenagem à poeta Cora Coralina.
Combinações
deliciosas! O Supreme de laranja com
ricota e funcho inspirado na escritora Raquel de Queiróz, gostei demasiado
desse, pela singeleza, a apresentação delicada sugeria um gominho de laranja,
salpicado de microbolinhas de ricota e uns mini raminhos de funcho. A mistura de
sabor dos três na boca foi indescritível e surpreendente.
Curiosamente
o texto a que ele inspirou é também muito caro a mim, trata-se da crônica:
“Agora quero falar de flores”, publicada em 2002:
Flor tem moda como roupa de mulher. E
as plantas do tempo antigo, flores, folhagens e ervas de cheiro, ninguém as
cultiva mais. Agora são só aqueles estúpidos fícus italianos que parecem feitos
de plástico, os antúrios e até tulipas. Hoje em dia, principalmente nas cidades
grandes, acabaram-se os manjericões. E as manjeronas, e as alfavacas e de modo
geral todas as ervas cheirosas. Quem é que ainda planta alecrim? Quem é que
ainda conhece malva-rosa?
Relendo lembrei-me
de Rubem Alves quando ele escreveu em defesa das árvores a pedido de um vizinho
e se encanta com a beleza de uma rua cheia de flores amarelas cobrindo o chão e
na tristeza que sentia ao ver a vizinha varrer todo dia e tirar a beleza das cores
esparramadas nas calçadas.
Das flores, pela
memória afetiva que ela me traz, não me esqueço do brinco de princesa, flor com
cheiro de coisa rara, pelo desenho, pelas cores vivíssimas, rosa e roxo, delicadeza
em forma, simplicidade no viver, escolhe os muros, os bambus de cerca ou um
canto de telhado, seus ramos se entrelaçam e ela se deixa dependurar solta,
leve, majestosa!
Das ervas, o Alecrim
é alegria de cheiro bom, frescor! Amo. Já escrevi um texto ou mais sobre o
alecrim, lá está ele no meu livro em 2005, também está no mini herbário, feito em
2009, sempre contando de seu nome perfumado “ros marinus” e o seu significado
ainda mais belo: orvalho que vem do mar.
Junto da brisa
que vem e nostálgica como Raquel de Queiroz, gosto desse sabor da infância, do
tempo antigo, gosto de revirar a memória, ainda ontem à tarde, revivi um álbum
de fotos da infância e tantos sorrisos eu vi ali que me emocionei diversas
vezes. Viajei no tempo, no colo de minha mãe, de meu pai, como me pareço com
ele... E vários tios. Vi um tio avô no comando de um pequeno barco comigo e
meus primos dentro; revi o sorriso franco, aberto, apaixonado de minha avó
materna ao me empurrar num carrinho de mão. Tão bonita era ela, morena, tão
alegre e vibrante!. Ai, ai... o tempo... A vida é um sopro, repetia o arquiteto
Niemeyer. E é.

A experiência
gastronômica dessa noite de sexta-feira foi única, e sabemos que experiência é
assim: sendo, deixando-se tocar e ser tocado. Prática de vida e movimento que
fazemos ao comer e também quando lemos um texto com desejo de apreciar a
palavra, experimentando. A palavra que me sai agora é: Gratidão. Agradecida fiquei
em participar desse momento, conhecer esses jovens, (alguns eu já conhecia)
experimentar seus feitos culinários e viajar com eles pela literatura
brasileira, desejando-lhes bons augúrios nesse novo caminho. O banquete encerrou-se com gosto de quero
mais: café com bolinhos de chuva, broa cremosa de milho, cocadas e quindins. Imagens?
Não fiz nenhuma foto. Guardei comigo cada um, os sorrisos, os sabores, as
criações apetitosas. Ficarão na memória que só o tempo apaga, mas que esse
registro escrito pode conservar por muitos anos... Como essas fotos do meu primeiro ano de vida. Coisa boa de ver!!
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