segunda-feira, 4 de abril de 2016

Bolinhos, bolinhos... de chuva, de vento, de sonhos, de amor

Me mudei de novo... só de casa, temporariamente, mas, mudei. Uma casa com um rico quintal e uma cozinha nova e maior que a minha no apê, mas, até colocar a casa em ordem para começar os trabalhos na cozinha, vixemaria...demorou... ou, eu demorei. Gosto de praticidade, das coisas, utensílios, potinhos, ingredientes, latas, pacotes, vidros, enfim, todos os apetrechos em lugares de fácil acesso e manejo. Já faz algum tempo que não escrevo aqui. Na cabeça muitos textos já se passaram, alguns foram escritos e salvos mas, não postados. Outros que a memória já apagou e ainda restam aqueles que penso sempre, preciso escrever sobre isso. A verdade é que minha dedicação à escrita extinguiu-se nos últimos tempos e estou saudosa desses momentos. O facebook mudou meu hábito de escrita, reduziu-o e muito. Essa rede social virtual é estranha... e altamente(falsamente?) crítica. Penso muito antes de escrever,  se devo ou não comentar, enfim, daí, acabo por não escrever nada ou pouco. Resta compartilhar com uma carinha, duas palavras e só. Que triste isso... O fato é que hoje, vi uma postagem de um amigo dando adeus ao face e dizendo com outras palavras, mais ou menos isso que digo agora: quero voltar a ter minha liberdade em escrever e cuidar de meus trabalhos. quero ser eu mesma a fazer críticas, do meu jeito, (porque enquanto escrevo também me critico e pondero e mudo palavras, sentidos, direções para onde quero ir com esse texto, mas, não em função do que os outros vão pensar ou dizer) minha espontaneidade e mais, não quero saber o que estão fazendo os outros, quero tocar minha vida sem ter que mostrar nada a ninguém(não era assim que vivíamos a poucos anos?) e não quero saber da vida alheia.  Esta noite, perdi o sono, era tanto o pensar sobre as coisas de ordem prática que perdi. Além de um chato de um pernilongo me zunindo o ouvido(estes têm visitado a casa quase todas as noites, preciso de mudas de citronela para plantar no pátio).

O fato é que há tempos, preciso dizer/escrever que eu amo cada vez mais estar na cozinha, mesmo com todas minhas tarefas como educadora e sonhadora que sou. Sonho por um mundo diferente. Na cozinha, canto, assovio, misturo, embalo, limpo, cuido, preparo, atuo com amor. Escuto carinhosamente de amigos que meus bolinhos são deliciosos,"tudo de bom" e fazem caras boas, me dão sorrisos, abraços, recebo amor.
Essa a verdadeira troca, essa é uma verdade para mim. Só recebemos aquilo que ofertamos. Eu, distribuo amor em forma de bolinhos. (tenho outros modos também de ofertar amor, quem sabe em outro texto eu possa refletir mais sobre isso). Que possamos oferecer mais amor uns aos outros, em várias formas de amor e amar.  Que os ventos de outono possam mudar esses rumos, que outros textos venham, que as chuvas lavem nossas almas cansadas e levem o que não nos serve mais, que a vida se renove, em mim, para o mundo que me cerca.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Uma experiência gastronômica na lembrança


Tempo, tempo, tão ligeiro estás... Foi numa sexta-feira à noite, há uns vinte dias... Tive a grata alegria em participar de uma banca de conclusão do curso de cozinheiro profissional do SENAC – Pelotas. O evento foi no Restaurante Trem Bão, de proprietários mineiros, estabelecimento que já completa 15 anos na cidade. A grande mesa para os convidados estava caprichosamente decorada com bonitos arranjos de flores frescas.
A proposta dos alunos orientados pelo professor André Eduardo, o Edu foi: “Entre panelas e palavras – um encontro entre a Gastronomia e a Literatura Brasileira”. Bem, só pelo título do banquete, já fiquei muito feliz; senti-me duas vezes em casa, por estar em um restaurante de comida típica mineira e por essa escolha dos alunos entre comida e livros. Desde a graduação em Letras, pesquiso edições de livros que contemplam essa mistura de gastronomia e literatura. Sensação boa e uma expectativa grande do que iríamos saborear na noite. Os alunos nos deram as boas vindas e para a apresentação dos pratos elegeram o Gregory, rapaz muito comunicativo, também formado em Letras para nos contar dos detalhes pensados, os ingredientes e um pouco sobre a literatura e os autores escolhidos.
Foi mesmo muito especial e quando se trata dessa mistura, um banquete inspirado na literatura brasileira com a diversidade da nossa cultura e fartura em alimentos e modos de preparo por todo país, não poderia ser diferente! Servido ao estilo menu degustação; um coquetel, com destaque para a pimenta recheada. Duas entradinhas perfeitas e muito saborosas, uma delas de comer rezando: Dados de queijo coalho e tapioca ao molho de cheiro verde; três pratos principais e o meu preferido foi o vatapá inspirado em Jorge Amado, que foi pra Gabriela nenhuma botar defeito! Entre os pratos principais, nos serviram dois “limpa palato” e de sobremesa uma mousse de queijos com doce de mamão em calda, homenagem à poeta Cora Coralina.
Combinações deliciosas! O Supreme de laranja com ricota e funcho inspirado na escritora Raquel de Queiróz, gostei demasiado desse, pela singeleza, a apresentação delicada sugeria um gominho de laranja, salpicado de microbolinhas de ricota e uns mini raminhos de funcho. A mistura de sabor dos três na boca foi indescritível e surpreendente.
Curiosamente o texto a que ele inspirou é também muito caro a mim, trata-se da crônica: “Agora quero falar de flores”, publicada em 2002:
Flor tem moda como roupa de mulher. E as plantas do tempo antigo, flores, folhagens e ervas de cheiro, ninguém as cultiva mais. Agora são só aqueles estúpidos fícus italianos que parecem feitos de plástico, os antúrios e até tulipas. Hoje em dia, principalmente nas cidades grandes, acabaram-se os manjericões. E as manjeronas, e as alfavacas e de modo geral todas as ervas cheirosas. Quem é que ainda planta alecrim? Quem é que ainda conhece malva-rosa?
Relendo lembrei-me de Rubem Alves quando ele escreveu em defesa das árvores a pedido de um vizinho e se encanta com a beleza de uma rua cheia de flores amarelas cobrindo o chão e na tristeza que sentia ao ver a vizinha varrer todo dia e tirar a beleza das cores esparramadas nas calçadas.
Das flores, pela memória afetiva que ela me traz, não me esqueço do brinco de princesa, flor com cheiro de coisa rara, pelo desenho, pelas cores vivíssimas, rosa e roxo, delicadeza em forma, simplicidade no viver, escolhe os muros, os bambus de cerca ou um canto de telhado, seus ramos se entrelaçam e ela se deixa dependurar solta, leve, majestosa!
Das ervas, o Alecrim é alegria de cheiro bom, frescor! Amo. Já escrevi um texto ou mais sobre o alecrim, lá está ele no meu livro em  2005, também está no mini herbário, feito em 2009, sempre contando de seu nome perfumado “ros marinus” e o seu significado ainda mais belo: orvalho que vem do mar.
Junto da brisa que vem e nostálgica como Raquel de Queiroz, gosto desse sabor da infância, do tempo antigo, gosto de revirar a memória, ainda ontem à tarde, revivi um álbum de fotos da infância e tantos sorrisos eu vi ali que me emocionei diversas vezes. Viajei no tempo, no colo de minha mãe, de meu pai, como me pareço com ele... E vários tios. Vi um tio avô no comando de um pequeno barco comigo e meus primos dentro; revi o sorriso franco, aberto, apaixonado de minha avó materna ao me empurrar num carrinho de mão. Tão bonita era ela, morena, tão alegre e vibrante!. Ai, ai... o tempo... A vida é um sopro, repetia o arquiteto Niemeyer. E é.
Li aquele Supreme de laranja com olhar apurado para sua harmonia _ presente em todos os pratos servidos _ despertando não só meus sentidos gustativos. Comi-o com leveza, sentindo cada toque colocado ali na feitura.
A experiência gastronômica dessa noite de sexta-feira foi única, e sabemos que experiência é assim: sendo, deixando-se tocar e ser tocado. Prática de vida e movimento que fazemos ao comer e também quando lemos um texto com desejo de apreciar a palavra, experimentando. A palavra que me sai agora é: Gratidão. Agradecida fiquei em participar desse momento, conhecer esses jovens, (alguns eu já conhecia) experimentar seus feitos culinários e viajar com eles pela literatura brasileira, desejando-lhes bons augúrios nesse novo caminho.  O banquete encerrou-se com gosto de quero mais: café com bolinhos de chuva, broa cremosa de milho, cocadas e quindins. Imagens? Não fiz nenhuma foto. Guardei comigo cada um, os sorrisos, os sabores, as criações apetitosas. Ficarão na memória que só o tempo apaga, mas que esse registro escrito pode conservar por muitos anos... Como essas fotos do meu primeiro ano de vida. Coisa boa de ver!!

 

domingo, 18 de maio de 2014

HIBISCUS SABDARIFFA


HIBISCUS SABDARIFFA, da família das Malvaceas. Esse fruto que tem nome de flor e muita gente ainda não conhece e se confunde, perguntando: é aquela flor? Não, não, tem flor também, mas, não é aquela que tem em várias cores em arbustos enfeitando as cidades, aqui em Pelotas, tem também em lilás, é linda, mas, já ouvi falar que tem outro nome, é uma espécie da mesma família, mas não chama Hibisco. Lembro de muitos deles com flores de tantas cores... na região serrana do Rio de Janeiro, em Lumiar, lugar abençoado pela natureza; cachoeiras, mata atlântica, belíssimo e inesquecível!
Então, pra quem conhece e quem conhece pouco ou nada, apresento o fruto do Hibiscus. 
Lindeza da natureza!
O hibiscus sabdariffa é também conhecido como Vinagreira, ou Rosela. O chá tem sabor azedinho e é de uma cor ímpar! Conheci o chá de Hibiscus em BH, na casa de chás: Colher de Chá, ficava no bairro Sion, rua Boa Esperança, 306. Foi na Colher de Chá que lancei meu livro: Memória Culinária: Coisa de Vó, com uma mesa farta de gostosuras, licores, chás, junto dos meus três amores e muitos amigos bons! coisa boa poder relembrar esses momentos! 
Uma das flores em amarelo-claro.
Esse Hibiscus da imagem, colhi na sexta-feira junto de minha amiga Nilda, aqui no Rio Grande do Sul, em Capão do Leão. É o segundo ano que colho junto dela. Daí, a gente vai colhendo, conversando e enchendo o balde e depois, sentamos na cozinha, vamos abrindo os frutos com pequenas faquinhas e retirando as sementes. Insetos vem junto na brincadeira, tem umas lacraias pequenininhas que são ágeis e rápidas, aranhas miúdas de pernas finas, formigas que quase comeram todas as folhas dos pés e até barbeiro, que aqui apelidam de "fede-fede". Depois do trabalho de retirada das sementes, Nilda lava tudo em água corrente e coloca pra secar numa grande peneira. 
Os Hibiscus já sem as sementes.
Nilda achou bonito esse e eu registrei.

Um pouco mais sobre o Hibiscus: também conhecida por caruru-azedo, quiabo-de-angola, quiabo-azedo, quiabo-roxo, caruru-da-guiné. é da família das malváceas,  a mesma do quiabo; nativa da África tropical, chegou ao Brasil provavelmente durante o período colonial, através dos navios negreiros. É um arbusto que cresce entre 1,5 e 3 metros de altura, com caule avermelhado ou verde. As flores são rosadas ou púrpuras, com o cálice vermelho e suculento, considerado popularmente como o fruto, porém o fruto mesmo é uma cápsula vermelha com 2,5 cm, esse daí, que colhemos! Eles são suculentos e refrescantes. São fonte de vitaminas A, B, C, cálcio, ferro, fósforo e proteínas. Pode-se preparar geleias, recheios de doces, pastas, marmeladas, xaropes e vinhos. Os resíduos da fabricação de geleia, xarope e vinho são aproveitados para a preparação de um vinagre de boa qualidade. Quando secos, basta colocá-los na água para que retomem a aparência  e as mesmas propriedades dos frescos.

Os pés que tiveram suas folhas comidas pelas formigas e de onde colhemos os frutos.
A foto acima mostra o milharal já secando, entre eles, dez pés de hibiscus. Os milhos que ainda restaram, são triturados, viram canjiquinha e também dão uma farinha fina que a Nilda faz biscoitinhos deliciosos, o restante, é processado e vai virar ração pra mais nova moradora do sítio, uma vaquinha que já está produzindo 3 litros de leite ao dia!! Eita coisa boa e bonita esse dia no campo. Gratidao imensa. AMO! Que cada vez mais esses encontros possam acontecer na vida de todos nós, colhendo e preparando nosso próprio alimento. Amém.

Os arbustos carregadinhos perto do arrozal, a colheita seguirá por mais dias.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Salada de arroz que a vovó Jura fazia

Poxa... o tempo... esse danadinho passa rápido... e eu, ultimamente com um tempo curtinho pras postagens no blog, não levo mais às ondas da RádioCom as receitas culinárias em viva voz e a última receita foi em dezembro, pensando e desejando a todos um Feliz Natal! Já estamos em abril....rsrs... Hoje, trago essa receitinha que já estava aqui, perto da Farofa de frutas, nos arquivos, mas, aguardava finalização. Como ela existem outras e aos poucos vou retomando, agora que me volto à escrita. Tenho estudado(estou cursando o Mestrado) e pensado muito nas imagens que essas receitas sempre me trouxeram e trazem, além de todo prazer que encontrei em relembrar e imagino que também em comer!
A imagem que me vem à memória quando lembro dessa receita de Salada de arroz é assim:
A cozinha tinha azulejos azuis, a bancada da pia era alta em mármore cinza, ao lado, havia um armário em metal, da Itatiaia, com 4 portas azuis e aquele espaço com duas portinhas de vidro onde guardávamos os copos e as xícaras (a memória é tão nítida, que posso ouvir o fechar e abrir daquelas portas) ali, naquele armário vovó também preparava os pastéis, sobre a parte de fórmica, que ela limpava com álcool antes de salpicar farinha em cima... voltando à receita de salada de arroz, lembro-me dela e minha mãe cortando e picando azeitonas, pimentões e o presunto apoiadas nessa bancada da pia e elas iam colocando os picadinhos numa vasilha oval de plástico vermelho, era ali que a mistura se dava, ali elas temperavam com o vinagre, o sal e a salsinha, por último colocavam o arroz. Faziam essa receita em ceias de Natal, como a Farofa de Frutas, mas você pode fazer quando quiser e pode trocar ingredientes, colocar outros, afinal, receita é assim; sempre inventada, reinventada, igualzim à memória...

Receita de Salada de arroz

Ingredientes:
2 xícaras de arroz integral preparadas de véspera
200 gramas de presunto de peru defumado
100 gramas de azeitonas pretas picadas
100 gramas de azeitonas verdes picadas
1 pimentão verde médio
1 pimentão vermelho médio
Um punhado de salsinha fresca
Suco de meio limão
2 colheres de sopa de vinagre de vinho branco
Sal a gosto

Modo de fazer:
Prepare o arroz integral de véspera, deixando-o mais firme e solto. Ele precisa estar frio para acrescentar os ingredientes. Lave bem os pimentões e pique em cubinhos pequenos. Pique também as fatias de presunto de peru defumado e as folhas de salsinha fresca. Vá colocando aos poucos todos os ingredientes, misturando ao arroz. Coloque um pouco de vinagre e o suco de meio limão. Mexa devagar, prove e se achar necessário acrescente um pouco de sal. Decore com um ramo de salsinha. Se quiser, pode acrescentar um pouco de gergelim torrado por cima.
Esta receita e a de farofa de frutas saíram junto com o texto: O sabor do passado de Jussara Lautenschlager no Jornal Diário Popular, dia 22 de dezembro de 2013. Se quiseres ler a matéria completa, dê uma olhada no link:
http://www.diariopopular.com.br/tudo/index.php?n_sistema=3056&id_noticia=Nzc4MTM=&id_area=MA==

Essa imagem abaixo foi no dia da visita da jornalista, montamos o prato e organizamos um pouquinho a mesa.