sexta-feira, 29 de abril de 2011

Uma palestra

Acabo de chegar em casa após uma palestra. No recinto lotado com pessoas em pé, pelos corredores, gente no segundo piso só a ouvir pelas caixas de som, sem ver o palestrante. Mais ou menos 180 pessoas. Atentei pra uma coisa, oitenta por cento, mulheres. Pensei: é interessante observar isso, nós estamos tão ávidas, tão atentas assim por uma palestra, uma audição? Não, não pensei tudo isso, isso digo aqui, quero dizer, escrevo agora, o que disse foi: Nós, mulheres, estamos tão mais presentes e atentas, não é? Muito burburinho, muita conversa, até que a presidente da mesa pediu que fôssemos nos aquietando para darem início a palestra. Vagarosamente o silêncio aconteceu. Ele começou agradecendo a presença de todos e foi tirando de sua boca uma poesia linda, linda:

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.


Mário Quintana, poeta das terras de cá. Os olhos já me enchiam de lágrimas...

E palestrou, palestrou...conflitos e desafios da modernidade, sim, estamos acelerados, sim, compramos mais do que necessitamos, sim, temos mais do que precisamos, fazemos cinco coisas ao mesmo tempo e ao final do dia, alguma coisa ainda ficou pra amanhã, sim, temos muito pra ser felizes e não somos. Pensei: desculpe-me, mas, eu sou feliz e agradeci por ser e estar ali ouvindo aquela palestra. Ouvir.
É necessário estar atento para mudar, é necessário caminhar junto com o tempo, com o nosso tempo, aquele em que se está inteiro, uma coisa de cada vez, e não nessa superficialidade e fugacidade. Precisamos de mais silêncio, estamos num mundo cheio de barulhos, ruídos. Que ironia, no mundo moderno, tão avançado, temos tecnologia pra nos facilitar a vida e ganharmos mais tempo, mas, não temos tempo...não dá tempo, estamos sempre atrasados... Ele palestrou, palestrou, fez citações diversas: onde desenvolve-se o amor não há medo... Olhai os lírios do campo...

Falou também dos excessos de alimentação, da necessidade biológica de prestarmos atenção aos sinais que o nosso corpo nos dá, de digestão e indigestão, de digerir também os pensamentos, dar tempo a eles, falou da necessidade de mudar certos hábitos que não nos fazem bem e insistimos muitas vezes em mantê-los e nos entupimos em remédios, enquanto, se mudássemos os maus hábitos, que nós sabemos quais são, o remédio talvez não fosse necessário. Consciência de cada um.
Uma consciência livre, contou uma história antiga de um rei arrogante e de um sábio bondoso que podia prever o futuro, da maldade humana, dos desenganos, das companhias ruins que estão em uma sintonia diferente da nossa e a gente permanece ao lado e perto delas, daqueles momentos que é necessário estar só consigo mesmo, só pra refletir um pouco, sem nada a fazer, nada mesmo, nada de tv, livro, celular, computador, nada, silêncio e você, um pouco todo dia. Porque não? Você pode.
Porque culpar-se? Porque temer? Nada vem para ti ao acaso. Nada. Tudo tem o seu tempo a sua hora. Aquieta-se. E terminou a palestra soltando de sua boca com firmeza leve palavras de Madre Tereza de Calcutá:

As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas.
Ame-as mesmo assim.

Se você tem sucesso em suas realizações,
ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos.
Tenha sucesso mesmo assim.

O bem que você faz será esquecido amanhã.
Faça o bem mesmo assim.

A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável.
Seja honesto mesmo assim.

Aquilo que você levou anos para construir,
pode ser destruído de um dia para o outro.
Construa mesmo assim.

Os pobres têm verdadeiramente necessidade de ajuda,
mas alguns deles podem atacá-lo se você os ajudar.
Ajude-os mesmo assim.

Se você der ao mundo e aos outros o melhor de si mesmo,
você corre o risco de se machucar.
Dê o que você tem de melhor mesmo assim.


Bom, depois de escrever tudo isso, preciso dizer algo mais?
Ah, sim, esta palestra nos foi ofertada numa Casa espírita, uma casa fraterna, onde se pretende que as pessoas encontrem acolhimento, amor e um pouquinho de paz.

domingo, 17 de abril de 2011

Encantamento num domingo de chuva

Neste domingão com uma chuva que parece não querer parar, segue uma boa literatura pra aquecer e encantar...

"Em tardes de domingo, sempre muito longas e vestidas de sossego, a mãe se fazia crianças para os filhos.
Ao pé da escada, junto da porta da cozinha, estava o tanque. De cimento cinza, ele guardava a água fria que despencava do morro, escorregando dentro de bambus _ veias cristalinas. A umidade favorecia viver e crescer ali, musgos verdes, tapetes por onde pequenas formigas passavam, arrastando montes de folhas. Mesmo o olhar se sentia acariciado por veludo assim tão fino.
Com anilinas para doces a mãe coloria as águas do tanque, uma cor de cada vez, e mergulhava as alvas galinhas legornes em banho colorido: azul, verde, amarelo, vermelho, roxo. Em pouco tempo o quintal, como que por milagre, era pátio de castelo, povoado de aves _ legornes agora raras_ desenhadas em livro de fadas. Ficava tudo encantamento. Não havia livro, mesmo aqueles vindos de muito longe, com história mais bonita do que as que a mãe sabia fazer. Não era difícil para Antônio imaginar-se príncipe e filho de mágicos.
Quando o dia ameaçava esconder o sol, entre seios e montanhas, aquele inofensivo bando, filho do arco-íris que morava na cabeça da mãe, se empoleirava nos galhos das árvores, bailarinas em carnaval. Antônio olhava os galhos até não poder mais..."

Este pequeno trecho extraí de um livro apaixonante que sempre me vejo as voltas com ele: INDEZ, de Bartolomeu Campos Queirós.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Porque bateu saudade...



Essa fotos são da Escola Professor Jayme de Souza Martins. Fica em Itabirito, quem a dirige há vinte e cinco anos é minha tia Rosa, filha mais velha do Professor Jayme, meu querido avô, com quem troquei algumas cartas durante a infância, filósofo e educador durante toda sua vida. Esta turminha aí era a da tarde, quinto ano. Trabalhar nessa escola foi uma satisfação e uma alegria enorme pra mim. Por resgatar uma convivência familiar com meus tios e primos e por estar em contato com uma diversidade de crianças! Gosto muito de crianças, elas me emocionam, me cativam.
As salas da escola são de poucos alunos e a relação do professor é mais próxima o que nos faz estabelecer uma relação de afeto com eles, sentimento que me move/motiva e me faz acreditar na educação como um processo transformador. Não acredito numa educação distante deste tipo de relação. Sempre busco por isso, pelo olhar atento, por cuidar, pela simplicidade, pelo afeto. Não que isso não possa ocorrer em outras escolas e com turmas maiores. Ou que não exista educação sem afeto. Há, mas, encanta, transforma?
Eu até poderia desenvolver esse assunto mas, hoje, trouxe essas fotos e essa receita pra matar a saudade...
Foi a aula de Guacamole. As crianças do quinto ano estavam estudando e se preparando para a apresentação dos trabalhos sobre o continente americano e eu resolvi preparar junto deles uma receita típica do México. Como uma boa parte dos alunos adora salgadinhos empacotados(essas porcarias feitas de gordura hidrogenada muito sódio e farinha), o Guacamole poderia agradar já que tradicionalmente, ele é servido em tortilhas, que lembram os doritos da elma chips. Nem tudo é perfeito! Rsrsrs... Pedi a alguns que trouxessem pra aula os abacates, ingrediente principal da receita e para outros pedi os pacotes de salgadinhos. Teve um aluno muito especial, que trouxe também um potinho de pimenta, lembrando que no México eles gostam de comida bem temperada e apimentada.
Anotamos a receita, observamos a estrutura do texto, comentamos os cadernos de receitas das mamães, alguns comentaram sobre as receitas na TV e uma aluna chegou a falar do caderno de receita de sua avó, que fazia um pavê que ela adorava...
Num primeiro momento eles torceram o nariz pra receita de Guacamole, abacate com tomate? E cebola? Argh... a maioria adora vitamina de abacate ou abacate amassado com bastante açúcar! Aí foi a hora do Huuumm... quase geral na sala!
Durante a preparação, os olhinhos já estavam brilhando e as bocas salivando pra provar aquela mistura esquisita. E ficou muito bom! Levamos o Guacamole em outra sala pra turma de lá conhecer e provar também. Eles explicaram pros colegas quais ingredientes tinham ali e teve aluno que não quis provar, outro adorou o guacamole com pimenta e ficou com o rosto vermelhinho, porque abusou na quantidade dela e saiu correndo pra beber água...
No final do semestre, na apresentação do trabalho interdisciplinar que ficou superbacana, envolvendo toda a escola, refiz a receita pros pais e visitantes. Imprimimos a receita num papel amarelo em formato triangular lembrando o doritos e distribuímos pra quem quisesse preparar a receita em casa. Alguém pode perguntar, mas, a Junelise dá aula de quê mesmo? Pois é, minhas aulas pra essa turma eram de Literatura e Produção de texto!
Ah, segue a receita:

GUACAMOLE

Polpa de dois abacates médios maduros
1 tomate médio bem picadinho
1 cebola pequena ralada
1 colher de chá de sal
caldo de um limão

Amasse a polpa do abacate com um garfo e misture todos os ingredientes restantes. Tempere com sal aos poucos até ficar a seu gosto.
Sirva acompanhado de salgadinhos tipo doritos, que é feito de farinha de milho.
A pimenta é a gosto também.