segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Uma experiência gastronômica na lembrança


Tempo, tempo, tão ligeiro estás... Foi numa sexta-feira à noite, há uns vinte dias... Tive a grata alegria em participar de uma banca de conclusão do curso de cozinheiro profissional do SENAC – Pelotas. O evento foi no Restaurante Trem Bão, de proprietários mineiros, estabelecimento que já completa 15 anos na cidade. A grande mesa para os convidados estava caprichosamente decorada com bonitos arranjos de flores frescas.
A proposta dos alunos orientados pelo professor André Eduardo, o Edu foi: “Entre panelas e palavras – um encontro entre a Gastronomia e a Literatura Brasileira”. Bem, só pelo título do banquete, já fiquei muito feliz; senti-me duas vezes em casa, por estar em um restaurante de comida típica mineira e por essa escolha dos alunos entre comida e livros. Desde a graduação em Letras, pesquiso edições de livros que contemplam essa mistura de gastronomia e literatura. Sensação boa e uma expectativa grande do que iríamos saborear na noite. Os alunos nos deram as boas vindas e para a apresentação dos pratos elegeram o Gregory, rapaz muito comunicativo, também formado em Letras para nos contar dos detalhes pensados, os ingredientes e um pouco sobre a literatura e os autores escolhidos.
Foi mesmo muito especial e quando se trata dessa mistura, um banquete inspirado na literatura brasileira com a diversidade da nossa cultura e fartura em alimentos e modos de preparo por todo país, não poderia ser diferente! Servido ao estilo menu degustação; um coquetel, com destaque para a pimenta recheada. Duas entradinhas perfeitas e muito saborosas, uma delas de comer rezando: Dados de queijo coalho e tapioca ao molho de cheiro verde; três pratos principais e o meu preferido foi o vatapá inspirado em Jorge Amado, que foi pra Gabriela nenhuma botar defeito! Entre os pratos principais, nos serviram dois “limpa palato” e de sobremesa uma mousse de queijos com doce de mamão em calda, homenagem à poeta Cora Coralina.
Combinações deliciosas! O Supreme de laranja com ricota e funcho inspirado na escritora Raquel de Queiróz, gostei demasiado desse, pela singeleza, a apresentação delicada sugeria um gominho de laranja, salpicado de microbolinhas de ricota e uns mini raminhos de funcho. A mistura de sabor dos três na boca foi indescritível e surpreendente.
Curiosamente o texto a que ele inspirou é também muito caro a mim, trata-se da crônica: “Agora quero falar de flores”, publicada em 2002:
Flor tem moda como roupa de mulher. E as plantas do tempo antigo, flores, folhagens e ervas de cheiro, ninguém as cultiva mais. Agora são só aqueles estúpidos fícus italianos que parecem feitos de plástico, os antúrios e até tulipas. Hoje em dia, principalmente nas cidades grandes, acabaram-se os manjericões. E as manjeronas, e as alfavacas e de modo geral todas as ervas cheirosas. Quem é que ainda planta alecrim? Quem é que ainda conhece malva-rosa?
Relendo lembrei-me de Rubem Alves quando ele escreveu em defesa das árvores a pedido de um vizinho e se encanta com a beleza de uma rua cheia de flores amarelas cobrindo o chão e na tristeza que sentia ao ver a vizinha varrer todo dia e tirar a beleza das cores esparramadas nas calçadas.
Das flores, pela memória afetiva que ela me traz, não me esqueço do brinco de princesa, flor com cheiro de coisa rara, pelo desenho, pelas cores vivíssimas, rosa e roxo, delicadeza em forma, simplicidade no viver, escolhe os muros, os bambus de cerca ou um canto de telhado, seus ramos se entrelaçam e ela se deixa dependurar solta, leve, majestosa!
Das ervas, o Alecrim é alegria de cheiro bom, frescor! Amo. Já escrevi um texto ou mais sobre o alecrim, lá está ele no meu livro em  2005, também está no mini herbário, feito em 2009, sempre contando de seu nome perfumado “ros marinus” e o seu significado ainda mais belo: orvalho que vem do mar.
Junto da brisa que vem e nostálgica como Raquel de Queiroz, gosto desse sabor da infância, do tempo antigo, gosto de revirar a memória, ainda ontem à tarde, revivi um álbum de fotos da infância e tantos sorrisos eu vi ali que me emocionei diversas vezes. Viajei no tempo, no colo de minha mãe, de meu pai, como me pareço com ele... E vários tios. Vi um tio avô no comando de um pequeno barco comigo e meus primos dentro; revi o sorriso franco, aberto, apaixonado de minha avó materna ao me empurrar num carrinho de mão. Tão bonita era ela, morena, tão alegre e vibrante!. Ai, ai... o tempo... A vida é um sopro, repetia o arquiteto Niemeyer. E é.
Li aquele Supreme de laranja com olhar apurado para sua harmonia _ presente em todos os pratos servidos _ despertando não só meus sentidos gustativos. Comi-o com leveza, sentindo cada toque colocado ali na feitura.
A experiência gastronômica dessa noite de sexta-feira foi única, e sabemos que experiência é assim: sendo, deixando-se tocar e ser tocado. Prática de vida e movimento que fazemos ao comer e também quando lemos um texto com desejo de apreciar a palavra, experimentando. A palavra que me sai agora é: Gratidão. Agradecida fiquei em participar desse momento, conhecer esses jovens, (alguns eu já conhecia) experimentar seus feitos culinários e viajar com eles pela literatura brasileira, desejando-lhes bons augúrios nesse novo caminho.  O banquete encerrou-se com gosto de quero mais: café com bolinhos de chuva, broa cremosa de milho, cocadas e quindins. Imagens? Não fiz nenhuma foto. Guardei comigo cada um, os sorrisos, os sabores, as criações apetitosas. Ficarão na memória que só o tempo apaga, mas que esse registro escrito pode conservar por muitos anos... Como essas fotos do meu primeiro ano de vida. Coisa boa de ver!!